Quando chegava a Semana Santa numa cidadezinha ao Nordeste há
alguns anos, tudo era diferente dos costumes de hoje em dia. A vida normal do
povo dava lugar a um sentimento cristão,com tudo se voltando para Cristo.
Logo a partir de Domingo de Ramos, sem que houvesse decreto ou lei
alguma, as pessoas passavam a respeitar aquele período: a irradiadora da
pracinha não tocava músicas profanas, os comerciantes pesavam com mais critérios
as mercadorias, deixando de roubar no peso, o cinema fechava as portas.
Na madrugada de sexta-feira para sábado, havia a queimação do
Judas, boneco feito com roupas velhas para ser queimado ao final. Mas, antes,
havia o testamento do traidor onde constava bens destinados a políticos,
familiares e correligionários numa crítica à sua atuação administrativa. No
sábado, às oito horas, era celebrada a missa da Aleluia. Algumas crianças, lá
fora, recitavam animadas: “Aleluia, Aleluia, carne no prato e farinha na
cuia”.
Antigamente, não se comia carne durante toda a Semana Santa. A
abstinência era total e rígida e as fazendas da região tratavam de providenciar
o abastecimento de peixes para a população, graças aos açudes que nelas havia.
Traíras, carás e curimatãs eram os peixes mais procurados. Os doces, também eram
evitados nesse período de penitência. Não se podia comer doce e nem chupar cana,
pois seria falta de respeito, já que Nosso Senhor tinha bebido fel.
Algumas crendices populares tinham amplo uso nesta época. Coisas
simples e sem nenhum sentido ofensivo eram consideradas pecaminosas, passando a
serem proibidas. Olhar-se ao espelho, usar batom e mesmo perfume, por serem
sinais de vaidade; tomar banho, pelo perigo das tentações à vista do corpo,
namorar, cantar, dançar e até assobiar seriam sinais de uma alegria incompatível
com um momento tão triste; manter relações sexuais durante a Semana Santa seria
pecado mortal, principalmente na Sexta-Feira da Paixão. O homem que assim
procedesse, ainda que legalmente casado, ficaria impotente para o resto da vida
e a mulher ficaria incapcitada para gerar filhos. O rebento, coitado, nasceria
com o “cão no couro”, sendo infeliz por toda a vida. Embriagar-se nesses dias,
seria condenar-se a nunca recuperar o juízo.
Pesquisa em livros do escritor Mário Souto Maior.
Fonte: Lumen – Edição 42 – Abril de 2003.
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